|
CIRURGIA
PARA OBESIDADE: reflexões clínico-cirúrgicas e conseqüências.
1). INTRODUÇÃO
A cirurgia da obesidade (cirurgia bariátrica) é um ato cirúrgico
de grande porte e é realizada apenas por motivos relevantes
em pacientes obesos mórbidos, com poucas exceções.
O cirurgião escolhido se reserva o direito de interpretar
as razões para a modificação do trato digestivo e indicar
ou contra-indicar a cirurgia baseada no julgamento clínico.
Há muitas cirurgias viáveis para pacientes obesos mórbidos
incluindo o grampeamento do estômago (gastroplastia vertical),
restrição gástrica com bandagem (bandagem gástrica), combinação
de cirurgia restritiva e malabsortiva (gastroplastia vertical
em Y do Roux), cirurgias estritamente disabsortivas (derivação
biliopancreática), e colocação de balões no estômago. Evitar
a cirurgia e tentar continuar a perder peso através de dieta
e medicamentos também é factível e muitos pacientes preferem
o tratamento clínico prolongado.
A maioria dos pacientes foi bem sucedida, mas não há garantia
de benefício desta cirurgia. Para cada melhora em potencial,
tal como controle do diabetes, normalização da hipertensão
arterial, e dos níveis de colesterol, de artroses e lombalgias,
podem ocorrer falhas.
Por exemplo, muitos pacientes obesos têm problemas respiratórios
enquanto dormem (apnéia do sono). O problema respiratório
nem sempre melhora com a normalização do peso, após cirurgia
bariátrica.
2). QUAL SERIA A PERDA DE PESO ESPERADA?
É esperada uma perda de peso, após um ano da cirurgia, de
pelo menos um terço ou metade do peso inicial do paciente.
Isto acontece na maioria dos pacientes, mas alguns (poucos)
não perdem peso ou, mais raramente, voltam a apresentar excesso
de peso de volta. Mesmo em cirurgia de obesidade bem sucedida,
a modificação gastrointestinal introduzida é considerada como
auxílio à perda de peso e não é algum tipo de milagre ou garantia
de sucesso.
O paciente deve cooperar e fazer mudanças no seu estilo de
vida, com pequenas refeições diárias, cortando os lanches,
bebendo apenas líquidos sem calorias, comendo vagarosamente
e fazendo outras mudanças nos hábitos de comer e beber, bem
como executando exercícios aeróbicos diários.
3). COMPLICAÇÕES DA CIRURGIA BARIÁTRICA
Quase todos os cirurgiões que fazem a cirurgia da obesidade
têm complicações ocasionais. Todo o paciente terá risco real
para uma ou mais complicações. Não há garantias que uma complicação
séria não venha ocorrer em qualquer caso.
As mais freqüentes e sérias complicações que podem ocorrer
são: " Infecção de parede, cavidade corporal (abdominal ou
tórax), pulmões (pneumonia, por exemplo). " Inflamação ou
infecção dos órgãos seguintes: pâncreas (pancreatite), estômago
(gastrite ou úlcera gástrica), esôfago (esofagites com dor
no peito, queimação, etc), fígado (hepatite), vesícula biliar
(colecistite, cálculos), rim (pielonefrite), insuficiência
renal, nefrite), bexiga (cistite), duodeno (duodenite, úlcera
duodenal). " O baço pode sangrar durante a cirurgia e precisar
ser removido. Isto pode aumentar seriamente o risco de infecção
pós-operatória. " Coágulos das veias dos membros inferiores,
pelve ou qualquer outro lugar do corpo podem se formar e chegar
aos pulmões, causando dificuldades para respirar (embolia
pulmonar).
Esses coágulos também podem resultar em edema ou ulcerações,
temporárias ou permanentes, nas pernas. " Líquidos do estômago
ou intestinos podem sair da cavidade abdominal, através do
corte cirúrgico. Nestes casos deve-se usar drenagem para uma
bolsa externa por período longo.
4). MODIFICAÇÕES PÓS-CIRÚRGICAS
Alterações no paladar e nas preferências alimentares ocorrem
com freqüência. Muitos pacientes têm dificuldades em comer
certos alimentos como carne vermelha, de consumo habitual
antes da cirurgia. Algumas vezes após a cirurgia, pode ocorrer
intolerância por certos nutrientes em alguns pacientes. Alimentos
ou líquidos podem não passar pelo reservatório gástrico ou
intestino, necessitando de dilatação por instrumentos ou endoscopia
(que têm seus próprios riscos).
Tubos para alimentação podem ser passados para o estômago,
intestinos, caso o paciente seja incapaz de comer ou beber
o suficiente pela boca. Cirurgia pode ser necessária para
corrigir os defeitos ou seqüelas mencionadas. Vômitos, náuseas,
distensão abdominal, queimação precordial, diarréia, flatulência
e fezes mal cheirosas, etc., podem ocorrer com freqüência
após esse tipo de cirurgia e isto pode ser um problema ao
comer certos tipos de alimentos.
De certo ponto de vista, pode ser um benefício desta cirurgia,
pois previne a ingestão de certos alimentos e líquidos por
medo do vômito e diarréia. Entretanto o paciente pode pensar
seriamente em desfazer a cirurgia após a persistência destes
sintomas. Sangramento do estômago, hérnia, abertura dos grampos
cirúrgicos, necessidade de re-operação por estas ou outras
razões, complicações de anestesia, problemas psiquiátricos
como depressão que precisam de cuidados especializados são
possibilidades resultantes da cirurgia bariátrica.
A estatística no Brasil mostra que aproximadamente 1% dos
pacientes pode vir a falecer após a cirurgia da obesidade.
A re-operação pode ser necessária e nenhum paciente deve se
submeter a cirurgia de obesidade se não estiver disposto a
aceitar essa possibilidade.
A internação na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pode ser
necessária para observação ou tratamento de qualquer complicação
que venha ocorrer da cirurgia.
5). ALTERAÇÕES TARDIAS DE CIRURGIA BARIÁTRICA
Após meses e anos, qualquer tipo de problema nutricional pode
ocorrer, incluindo falta de vitaminas, proteínas, calorias,
minerais, (absorção de ferro, magnésio e cálcio).
Sintomas destas carências nutricionais podem incluir mal estar,
paralisias, confusão, exantemas, anemias, queda de cabelo,
problemas de ossos ou articulações, ferimentos que cicatrizam
com dificuldade, irritabilidade na língua, dormência. Após
a cirurgia da obesidade é necessário tomar suplementos vitamínicos
e acompanhamentos por médico endocrinologista bem experiente
nesta área, por toda a vida.
O paciente pode precisar de injeções de vitaminas e / ou ferro
todo o mês por longos períodos. Mesmo que o (a) paciente alcance
a meta de perda de peso, não significa que estabilize este
peso pelo resto de sua vida, podendo perder mais peso ou eventualmente
ganhar peso após o emagrecimento inicial em qualquer época
após a cirurgia.
Com a perda do peso, a pele dos braços, pernas, pescoço, abdome,
face ou qualquer outro local pode tornar-se enrugada, curvando-se
ou pendurando-se como uma grande dobra. Isso pode tornar-se
totalmente irritante, embaraçoso ou evoluir com erupção da
pele ou infecções e odores. Em conseqüência disto o paciente
pode sentir a necessidade de outras cirurgias futuras (Plásticas
cirúrgicas).
|