Nos últimos anos, congressos médicos dedicados ao estudo
da obesidade apontam para risco maior de câncer na população
com obesidade.
As principais suspeitas recaem sobre câncer de mama (na
fase pós-menopausa), câncer do cólon (intestino grosso)
câncer no endométrio (a camada de células que cobre o útero),
o esôfago e os rins. Nas estatísticas oficiais norte-americanas
notou-se que 41.000 novos casos de câncer ocorriam em pessoas
com índice de massa corporal (IMC) acima de 30.
O IMC é um índice obtido da divisão do peso da pessoa (em
quilos) dividido pela altura (em metros) elevado ao quadrado.
Por outro lado, quando se procurou saber a causa de morte
por câncer (de várias partes do corpo) notou-se que 14%
tinham excesso de peso. Este número é mais elevado em mulheres
onde 20% apresentavam algum tipo de câncer.
Câncer de mama em obesas
As mulheres com excesso de peso, desde que em idade fértil
não apresentam maior prevalência de câncer de mama comparativamente
às mulheres de peso normal. No entanto após a menopausa
as obesas têm o dobro da prevalência de câncer de mama.
O risco de morte por câncer de mama após a menopausa é muito
maior nas obesas.
Para se ter uma idéia do que poderia ser evitado (câncer
de mama e morte) estima-se que 18.000 mulheres por ano teriam
evitado o câncer de mama e morte se o seu peso ficasse dentro
de limites razoáveis na fase pós-menopausa. Diante deste
número, os pesquisadores e epidemiologistas passaram a investigar
quais os fatores que levam as mulheres obesas menopausadas
a terem maior risco de câncer de mama.
O primeiro ponto a ser considerado foi a dificuldade dos
métodos de imagem de detectar nódulos mamários em mulheres
obesas. Tanto a mamografia como a ultrassonografia têm dificuldade
de visualização de nódulos em mamas muito volumosas.
Outro fator considerado importante é o excesso de hormônio
feminino (estrogênio) nas obesas. Antes da menopausa os
hormônios femininos (estradiol, progesterona) são produzidos
pelos ovários, em ritmo cíclico, com ovulações mensais.
Com a menopausa cessam as ovulações, mas os ovários podem
secretar estrógeno por alguns meses. Após algum tempo os
ovários deixam de secretar o estradiol e os sintomas da
menopausa podem surgir.
Nas mulheres de peso normal ou pouco elevado a massa de
células com gordura (adipócitos) é pequena. Mas nas obesas
o grande número de adipócitos pode levar a uma elevada produção
de hormônio feminino. Isto porque os adipócitos contêm uma
enzima (aromatase) que converte outros hormônios circulantes
em estradiol e estrona. Este excesso de estrógenos (particularmente
estrona) tem sido considerado como um fator cancerígeno
para as mamas.
Câncer de endométrio
A camada de células que recobre o interior do útero tende
a regredir em espessura e número de células após a menopausa.
No entanto as estatísticas apontam aumento dos casos de
câncer do endométrio (útero) em obesas comparativamente
às pessoas de peso normal. Novamente tal prevalência mais
elevada de câncer do útero em obesas está muito ligada ao
excesso de hormônios estrogênicos (estradiol, estrona) produzidos
pelas células adiposas.
Os hormônios femininos são estimuladores da proliferação
da camada interna do útero. O estímulo permanente para crescimento
destas células endometriais pode gerar o câncer do útero.
Muito se discute sobre o papel, também estimulante, da insulina.
Em mulhres obesas, com dieta rica em doces, massas, batatas,
farináceos (carboidratos) existem aumento da insulina, hormônio
do pâncreas que regula o açúcar circulante (glicemia). A
insulina muito elevada em conjunção com excesso de estrógenos
cria o ambiente hormonal mais propício de desencadear câncer
do endométrio.
Câncer de cólon
Em mulheres obesas, com baixa atividade física, hábitos
alimentares restritos a carboidratos e alguma carne, ave,
peixe, mas nenhuma verdura, legumes e frutas, surgem condições
favoráveis para o câncer de cólon. Primeiro porque a dieta
é muito pobre em fibras e, a partir deste fato, surge a
constipação intestinal crônica. Foi documentado, em exames
por colonoscopia (visualização direta do intestino) que
os pólipos (crescimento de pequenos tumores, geralmente
benignos) são mais comuns em obesas do que em mulheres de
peso normal.
Além disso, o excesso de carboidratos (muitos doces, farináceos,
batatas, etc) desde que haja concentração de gordura na
área abdominal, leva a um quadro de excesso de insulina.
Sabe-se que o câncer cólon-retal (do intestino grosso e
recto) é mais frequente em associação com excesso de insulina
e outros hormônios a ela relacionados (IGF-1). As obesas
também têm baixa produção de um ‘ônibus’ que transporta
hormônios femininos pela circulação. A falta deste ‘ônibus’
chamado de SHBG leva ao fato de que o estradiol e a estrona
estão mais elevados na sua forma livre, isto é, pronto para
atuar seja na massa, no endométrio e na área do cólon.
O excesso de energia acumulada e risco de câncer
Em toda mulher obesa existe grande quantidade de células
adiposas, repletas de gordura. É um excesso de energia calórica
acumulada. Este excesso de gordura leva a múltiplos efeitos
no metabolismo de outras células, principalmente no maior
nível de radicais livre e possível dano ao DNA das células,
induzindo a possibilidade de câncer. Em conclusão, mulheres
de peso normal, com dieta rica em fibras, pouco carboidrato
e muito exercício, terão menos chance de serem vítimas de
vários tipos de câncer. Por Geraldo Medeiros