Chamamos de Fome Oculta aquela que não vemos na aparência
do que se ingere no dia a dia. Hoje, as pessoas consomem
alimentos sem se preocuparem, por exemplo, se são ricos
em vitamina A, ou ferro, ou se existe iodo para a tireóide.
No entanto a falta permanente dos chamados micro-nutrientes
essenciais leva a sérios distúrbios em várias áreas do nosso
organismo. Sabemos, por exemplo, que os navios da época
dos descobrimentos (séculos 15 e 16) não podiam armazenar
frutas e legumes frescos, ricos em vitamina C.
Seus marujos tinham com frequência o escorbuto, com sangramento
de gengivas, queda de dentes, e outros males para o organismo.
Mais tarde, já no século 19 identificaram-se anemias devidas
a falta de ferro, alterações do sistema neurológico por
falta de iodo e bem mais tarde, já no século 20, as alterações
em nosso corpo devido à falta de vitamina D, do ácido fólico
e de zinco, selênio e outros minerais.
Aspectos gerais da deficiência de vitamina A A vitamina
A, também conhecida como ácido retinoico ou mais exatamente
como um grupo químico chamado de retinoides é encontrada
em abundância no fígado (bovino, caprino, suíno) na gema
de ovo, no leite integral.
Os pigmentos naturais de cor laranjada chamados de carotenos
se encontram em cenoura, brócoli, espinafre e em frutas
muito conhecidas como tomate, mamão e papaia. Os carotenoides
são considerados como precursores da vitamina A, sendo transformados
nesta importante vitamina dentro do nosso metabolismo diário.
A vitamina A é muito importante para a função visual, pois
é essencial para a síntese da substância conhecida como
rodopsina que é parte integrante dos elementos de nossa
retina. A falta de vitamina A leva a cegueira noturna ou
perda da visão durante a noite, além de várias lesões da
retina (constituindo um conjunto de doenças da visão).
Além disso, a deficiência da vitamina A altera a capacidade
reprodutiva da mulher, com abortos espontâneos e alterações
no fígado do recém nascido. A vitamina A é essencial para
o crescimento e desenvolvimento da criança, desde o período
fetal até a adolescência. No adulto a vitamina A tem excelente
poder antioxidante isto é, de combater radicais livres (perniciosos
para o metabolismo celular). Infelizmente a deficiência
de vitamina A atinge mais de 250 milhões de habitantes no
nosso planeta e a Organização Mundial de Saúde tem programas
específicos para sanar esta deficiência especialmente em
gestantes.
A falta de ferro e a anemia crônica Apesar do imenso desenvolvimento
dos nossos conhecimentos sobre Fome Oculta, a deficiência
de ferro e a anemia crônica atinge 2 bilhões de pessoas
no mundo inteiro, sendo a doença carencial mais prevalente
ao lado da deficiência de iodo. É óbvio que a falta de ferro
está associada à miséria e às condições sanitárias sub humanas,
com falta de nutrientes adequados. O ferro faz parte do
pigmento vermelho que existe na célula sanguínea chamada
hemácia ou glóbulo vermelho.
A hemoglobina, basicamente constituída por ferro, transporta
o oxigênio vindo dos pulmões para todos os tecidos do corpo.
No caso de não haver ferro não se sintetiza a hemoglobina
e surge a anemia (chamada de ferropriva).
A falta de oxigenação eficiente dos nossos órgãos afeta
muito a vida fetal. Além disso, a falta de ferro leva ao
grave problema de recém-nascidos anêmicos, com pouca probabilidade
de vida. Por outro lado os escolares anêmicos têm dificuldade
para estudar, para aprender, com grande evasão escolar,
e baixa produtividade intelectual.
No Brasil o combate à fome oculta do ferro é realizada de
várias maneiras. Uma delas é utilizar tecido bovino, rico
em ferro, dessecado (isto é, transformado em pó) adicionando-o
a um biscoito de boa palatabilidade. O biscoito enriquecido
com ferro é distribuído a escolares fornecendo o indispensável
ferro e evitando a anemia.
A falta de iodo causa dano á gestante Na medicina chinesa,
séculos antes da nossa era, os médicos receitavam extrato
de esponjas marinhas (que hoje, sabemos que têm muito iodo).
Mas a deficiência de iodo é altamente prevalente nas áreas
montanhosas do planeta. Nos Alpes e nos Andes, na Indonésia,
na Índia e na China a falta de iodo induzia a 'bócio' -
a tireóide ficava aumentada de volume, formando o que popularmente
se chama 'papo'.
Mas o maior problema da falta de iodo é a repercussão negativa
na formação do cérebro fetal. Desde que a gestante não receba
o mínimo de iodo por dia o cérebro fetal pode ser cerca
de 30% menor do que o normal.
A criança terá o que se chama de disfunção cerebral mínima
para grave, com possibilidade de debilidade mental, má-escolaridade,
formando um conjunto de indivíduos adultos inaptos ao trabalho
e de baixas condições sócio econômicas.
Apesar de todos os esforços da Organização Mundial de Saúde
cerca de 2 bilhões de pessoas ainda vivem em condições de
carência de iodo. A adição de iodo ao sal destinado ao consumo
humano é a grande solução para este problema de 'fome oculta'.
Por Geraldo Medeiros 22-06-2009