A gordura no corpo humano, assim como em todos os vertebrados,
não pode ficar "solta" no meio dos tecidos. Para que isso
não ocorra a natureza criou um tipo especial de célula chamada
adipocito (adipo = gordura, em grego).
Os adipocitos, no corpo humano, são totalmente diferentes
quanto a sua distribuição, localização, variando de acordo
com o sexo feminino ou masculino. A distribuição de gordura
no sexo feminino é bem característica, localiza-se no abdômen
inferior, nas áreas laterais das coxas (culotes) e nos glúteos.
Essa disposição de gordura envolvendo toda a bacia do corpo
feminino tem como finalidade a proteção de uma eventual
gravidez, pois forma um "colchão protetor" em torno do útero.
No corpo masculino a gordura, quando excessiva, se acumula
no abdômen.
Aí encontramos dois tipos de células gordurosas. Uma facilmente
palpável que é a gordura subcutânea e outra que se encontra
entre as alças intestinais, formando cordões de células
adiposas -chamadas de gordura visceral. Esta gordura visceral
é a mais perigosa, pois produz colesterol e lipoproteínas
que irão formar placas de gordura dentro das artérias coronárias.
É consenso unânime entre cardiologistas e endocrinologistas
que o acúmulo de gordura abdominal do tipo masculino é aquela
que oferece maior risco de futuro problema coronariano,
ou seja, o infarto do miocárdio.
As células adiposas secretam vários hormônios e produtos
químicos
Dados muito recentes de pesquisas médicas indicam que as
células adiposas formam um sistema de secreção de várias
substâncias, ligadas à coagulação do sangue, à manutenção
do peso, à interligação entre o tecido adiposo e o cérebro,
além de hormônios. Um exemplo é o fato de que as células
adiposas femininas na época da menopausa passam a formar
um hormônio feminino chamado estrona (que é muito semelhante
ao estradiol, clássico hormônio feminino).
A produção de estrona pelo tecido adiposo irá aliviar os
sintomas desagradáveis da menopausa feminina, aliviando
os fenômenos de sudorese noturna e calores. Por outro lado,
as células adiposas em ambos os sexos produzem uma substância
muito importante chamada leptina. A leptina se dirige ao
cérebro onde atua em área especial chamada hipotálamo, avisando
que já existe um excesso de gordura acumulada e que o indivíduo
deve moderar a ingestão de comida.
Esse circuito bioquímico entre a gordura acumulada e o cérebro
funciona muito bem para aqueles felizes seres humanos que
são, por natureza, sempre magros. No gordinho parece que
a leptina não consegue ter muito sucesso no sentido de comunicar-se
com o cérebro, induzindo menor ingestão de calorias. Isso
se deve à ausência ou defeito no receptor de leptina no
hipotálamo.
Gordura acumulada é reserva de energia
O tecido adiposo é a nossa reserva de energia. Ele fornece
"combustível" para que o músculo possa se contrair, utilizando
a gordura liberada pelo tecido adiposo. É o que chamamos
de "queima de gordura", ou em linguagem médica o gasto energético.
A comunidade médica que lida com o problema do excesso de
peso está muito interessada em que haja maior gasto energético
para propiciar maior "queima" de gordura.
O esquema é bastante simples: quanto mais gastarmos energia
acumulada e diminuirmos a ingestão de calorias, maior será
a perda ponderal. Existem medicamentos que aumentam o gasto
energético, mas com alguns efeitos colaterais inconvenientes.
A ciência tem procurado descobrir medicamento que seja bastante
eficiente no aumento do gasto energético, mas que não atrapalhe
os outros sistemas ou órgãos. Esses produtos (em estudo)
são muito semelhantes aos hormônios da glândula tiroide
e já estão sendo empregados em pesquisas com pacientes.
O tecido adiposo marrom é um gastador Em roedores (ratos
e camundongos) existe grande quantidade de um tecido adiposo
muito especial de cor marrom, que se localiza no dorso do
animal. Quando o animal é colocado em temperaturas muito
baixas, como por exemplo, a 4ºC, imediatamente o tecido
adiposo marrom é ativado de forma a gerar calor de forma
extremamente eficiente. Em humanos, o tecido adiposo marrom
é encontrado em recém-nascidos e durante o primeiro ano
de vida.
Da mesma forma que nos animais experimentais, a criança
tem nesse tecido uma forma rápida de gerar calor se, por
ventura, estiver em ambientes frios. Com o passar do tempo,
o tecido adiposo marrom aparentemente se atrofia, sendo
raro encontrá-lo em adultos. No começo deste ano, três grupos
de cientistas, com trabalhos independentes, confirmaram
que o tecido adiposo marrom está presente em todos nós,
mesmo na fase adulta da existência.
Da mesma forma que nas crianças, os métodos de imagem capazes
de indicar a presença de tecido marrom confirmaram que ele
aumenta a sua atividade quando o indivíduo é exposto ao
frio. Compararam também as imagens da presença de tecido
adiposo marrom em indivíduos de peso normal e em obesos.
Verificaram, com grande surpresa, que os obesos tinham quantidades
muito pequenas de tecido adiposo marrom, mesmo quando submetidos
por algum tempo a temperaturas baixas.
Como o tecido adiposo marrom é uma excelente e eficiente
máquina de "queimar gordura", os gordinhos estão em grande
desvantagem em relação aos indivíduos magros, pois esses
têm uma arma muito poderosa para transformar gordura em
calor e, desta forma, manter o peso. Como o tecido marrom
queima gordura As células do tecido adiposo marrom possuem
um "maquinário celular" preparado para gerar energia armazenada.
No caso de ser acionado, o maquinário se modifica para que
essa dissipação de calor seja a mais eficiente possível.
Nesse processo, entram em cena os hormônios da tiroide e
a formação de uma proteína especial que dirige a energia
obtida da gordura corporal para gerar calor.
O processo é tão eficiente que um porcentual enorme da gordura
acumulada no corpo é conduzido para a geração de calor.
Isso significa um gasto energético excepcional, que se for
associado à ingestão calórica diminuída levará a uma perda
natural do peso. O problema é que somente os indivíduos
de peso normal têm um sistema adiposo marrom altamente competente,
enquanto que os gordinhos possuem poucas células deste maravilhoso
queimador de gordura.
O passo seguinte, naturalmente, é saber por que os obesos
teriam uma relativa atrofia do tecido adiposo marrom. Se
nós conseguirmos desvendar este mistério, poderemos passar
para o passo seguinte: induzir o aparecimento desse sistema
eficiente de queimar gordura. Essas pesquisas recentes nos
dão uma excelente perspectiva para a terapêutica da obesidade,
seja em crianças ou em adultos, utilizando um mecanismo
natural e fisiológico que o nosso corpo já possui.
Por Geraldo Medeiros 01-06-2009