Não existe uma só modalidade de excesso de peso ponderal,
ou seja, obesidade. Devemos sempre falar em "obesidades"
no plural, porque, sem dúvida, leve ganho de peso da adolescente
que brigou com o namorado e comeu uns quilos de chocolate
a mais (à guisa do consolo) nada tem a ver com o insaciável
obeso, cujo excesso de peso vem da infância, progrediu pela
adolescência e ganhou força de obeso mórbido (ou grau III)
ao redor dos 30-40 anos.
Obviamente a adolescente, que brigou com o namorado em breve
terá novos amores e vai baixar ao peso normal enquanto o
robusto obeso grau III irá lutar toda sua vida para tentar
baixar o peso, com alguns sucessos, mas muitos fracassos,
passando a ser o tipo gangorra ou sanfona que engorda-emagrece-engorda.
A ciência genética indica que este exemplo de obeso tem
enorme probabilidade de estar ligado a vários genes que
induzem obesidade. A maior recente descoberta neste controverso
campo de pesquisa é que o gene FIO (fator de indução de
obesidade) quando modificado, gera uma vontade enorme de
comer quantidades enormes de alimentos altamente calóricos
(bolo de chocolate com calda) e de beliscar a toda hora,
principalmente à noite.
Muitas dietas e poucos resultados
Em artigo publicado recentemente, em importante revista
médica, os autores estudaram os resultados de quatro diferentes
dietas em 881 obesos, altamente motivados, inteligentes,
cultos indivíduos que recebiam instruções mensais sobre
nutrição - em grupos ou individualmente. Eles tinham acesso
aos médicos e nutricionistas para esclarecer dúvidas e aprender
os fundamentos científicos da composição dos alimentos e
das bebidas que lhes eram oferecidas.
As dietas foram, basicamente, de quatro tipos: baixa em
carboidratos, ricas em proteínas, baixa de gorduras, e as
chamadas balanceadas. Ao fim de seis meses todos os participantes
tinham perdido 6 kg (não importando a dieta), mas ao fim
de um ano começaram a ganhar peso. Ao fim de dois anos os
gordinhos tinham uma perda ponderal de apenas 4 kg.
Os autores do trabalho concluíram que qualquer que seja
a dieta a perda de peso é a mesma e relativamente irrisória.
Não concordo em nada com esta conclusão apressada e aparentemente
pouco lógica. É importante, adaptar a dieta ao obeso, é
essencial a participação do médico, é crucial a mudança
do estilo de vida (sedentarismo).
Centenas de dietas vêm sendo propostas
Aproximadamente 20 ou 30 anos atrás, nos EUA, iniciou-se
um período de verdadeira "neurose quanto as gorduras" por
se julgar que toda a culpa das coronariopatias era devido
ao elevado consumo de gordura animal. Louvava-se os óleos
vegetais poli-insaturados, abolia-se a manteiga, satanizava-se
os ovos.
Foi a época das dietas com elevado teor de Carboidratos
(pães, massas, batatas) devido ao fato de se acreditar que
as calorias dos farináceos eram menos "engordativas" que
as fornecidas pelos presuntos, bacon, linguiças, carnes
gordas, etc. Nos anos 70 o popular Dr. Atkins lançou a dieta
que se contrapunha a todos os preceitos da época: muita
gordura, ovos fritos com bacon, queijos em profusão, presuntos,
etc., e nada de carboidratos.
Os gordinhos deliravam, pois comiam do bom e do melhor e
perdiam muito peso pelo fato de, rapidamente, entrarem em
estado de "cetose", isto é, substâncias derivadas do metabolismo
de gordura que dão um hálito peculiar que lembra a acetona.
Mais recentemente surgiu com grande êxito a dieta das proteínas
em que se estabelece "sinal verde" para proteínas animais
(carnes, aves, peixes, queijos magros, ovos) e reduz a ingestão
de carboidratos de alto índice glicêmico -- os que viram
rapidamente açúcar no corpo humano.
Nestes últimos 12 meses, vimos publicados artigos defendendo
a dieta de proteínas, a dieta do Mediterrâneo e a dieta
balanceada. O fato é que os obesos NÃO são iguais sob o
ponto de vista metabólico. Na mesma dieta alguns perdem
mais peso que outros. Quando existe uma profunda e excelente
relação médico-paciente o resultado é sempre melhor. O que
se pode concluir deste estudo de dois anos é que os fatores
comportamentais são mais importantes que alterações em carboidratos,
gorduras ou proteínas.
A incapacidade de pessoas obesas, que são voluntárias a
participar destes estudos a longo prazo (dois anos), é algo
próprio da condição humana: ninguém aguenta ficar dois anos
em disciplina alimentar severa e restritiva, mesmo com permanente
assistência médica, psicológica e nutricional.
Neste ponto pergunta-se: qual a solução para a enorme crise
de Obesidade (sempre crescente) que assola o planeta?
Uma cidade do sul da França talvez tenha a solução
Nesta pequena cidade francesa notou-se que os escolares
estavam se tornando obesos, isto é, cerca de 18% das crianças
eram bem gordinhas.
Deliberou-se que toda a comunidade deveria tomar parte em
um projeto para resolver o problema. Portanto, o prefeito.
como os donos de lojas, os professores, donos de farmácia
e de restaurantes, associações esportivas, o jornal e rádio
locais, médicos, enfermeiras e nutricionistas, TODOS se
empenhariam no sentido de motivar as crianças a perder peso
e a ter um programa de exercícios.
A cidade construiu mais centros poli esportivos, indicou
itinerários para caminhadas e contratou vários instrutores
de esportes variados. As famílias fizeram concursos de cozinha
mais leve e dietética e fizeram rodízio de crianças para
almoço e jantar.
Após três anos o índice de obesidade infantil decresceu
para 8% (comparativamente a uma comunidade vizinha onde
a obesidade infantil permanecia em 17%). O sucesso desta
ação comunitária foi tão grande que hoje cerca de 200 cidades
europeias estão seguindo o mesmo modelo. A conclusão é que
muitas vezes a obesidade não pode ser resolvida individualmente,
mas necessita apoio comunitário - uma medida, mais importante,
creio eu, que o tipo de DIETA.
Por Geraldo Medeiros 23-03-09