Há cerca de 15 anos nota-se que a prevalência do excesso
de peso e obesidade entre crianças e jovens adolescentes
vem aumentando de forma assustadora tanto nos países industrializados
como em países emergentes como a China, Rússia, Índia e
Brasil, entre outros. Tomando como exemplo os Estados Unidos
observou-se que cerca de 11% dos escolares apresentavam
excesso de peso em 1990. Em 2005 este valor passou a ser
de 29%.
Curiosamente os países anglo-saxônicos (EUA, Reino Unido
e Austrália) são os campões desta estatística de obesidade
infanto-juvenil. A definição de excesso de peso e obesidade
é determinada em adultos pelo Índice de Massa Corporal (IMC)
o qual é o número obtido da divisão do peso em quilos (kg)
pela altura, em metros, elevada ao quadrado.
Todavia a criança e o adolescente crescem e a altura eleva-se
a cada 6-12 meses, o que modifica o IMC sem que haja, necessariamente,
excesso de peso ou obesidade. Para corrigir o fator crescimento
estabeleceram-se tabelas com crianças e adolescentes de
2 a 20 anos indicando o IMC para cada idade (facilmente
obtidas no site www.cdc.gov/growthcharts/49).
Quando a criança / adolescente está acima de determinado
valor do IMC para sua idade dizemos que ela está com excesso
de peso. No caso de ultrapassar os 95% do IMC para sua idade
é considerada obesa.
A obesidade tem várias causas
O ser humano possui um complexo mecanismo controlador da
Fome e da Saciedade que é estabelecido tanto na vida intrauterina
como na fase pós-natal. Desde que haja aporte de suficiente
de alimento na vida fetal este "termostato ou nutrostato"
é perfeitamente regulado.
Após ingerir comida suficiente - em qualidade e em quantidade
- cessa o estímulo (fome) para continuar a refeição, estimulando-se
a saciedade. Na hipótese da criança, em gestação, receber
poucos nutrientes vindos da mãe, passa a regular o seu "nutrostato"
para a posição de fome continuamente.
Terá alta probabilidade de ser obesa, na fase pós-nascimento,
por ter fome constantemente. Na fase pós-natal o recém-nascido
que foi amamentado por seis meses ou mais tem muito pouca
chance de ser obeso comparativamente àqueles que não foram
amamentados com leite materno. Fatores genéticos são importantes.
Muito recentemente verificou-se que boa parte das crianças
obesas tem uma alteração em determinado gene (FTO = fator
determinante de obesidade), que leva à fome compulsiva e
predileção por alimentos de elevado teor calórico. O meio
ambiente, é óbvio, tem um papel muito importante para que
o gene se manifeste. Quando ambos os progenitores são gordos
existe no ambiente doméstico uma valorização muito grande
do fator "comida", quase sempre de elevado teor calórico.
Frequentemente a família utiliza-se de fast-food, comidas
pré-preparadas, refrigerantes, pipocas, salgadinhos, batatas
fritas... Tudo isso acompanhado de horas de TV.
Lanches e salgadinhos na escola
Recente levantamento realizado na cidade de São Paulo mostrou
que na maioria das escolas havia uma ampla gama de salgadinhos
disponíveis para escolares, todos ricos em gordura, altamente
calóricos em embalagens atraentes. Mas pior ainda: as informações
nutricionais das embalagens minimizam o conteúdo de gordura
e de calorias, bem como do sal.
Quase todas as embalagens não estavam corretas e não faziam
referência à gordura 'Trans", altamente prejudicial ao nosso
organismo e, possivelmente, pior ainda para as crianças.
Por outro lado quase todos os cinemas atraem crianças e
adolescentes para o balcão onde saem enormes baldes de pipoca,
imensos copos de refrigerantes, barras de chocolates com
nozes, avelãs, etc. Todos estas guloseimas empurram a criança/adolescente
à obesidade.
O fator sedentarismo
Há cerca de 30 ou 40 anos, a imensa maioria da garotada
corria atrás de balões, jogava bola na rua ou em terrenos
baldios, andava de bicicleta, empinava-se pipas, nadava
nas piscinas, nos lagos, nos riachos. Hoje, após as aulas
e os deveres escolares, a criança e o adolescente vão direto
ao computador (se tiver), ou à televisão.
Os jogos eletrônicos atraem a garotada como mel atrai moscas.
Os jogos acoplados à tela fazem com que o adolescente fique
horas e horas sentado, com o gasto energético mínimo. Os
aparelhos portáteis (game-boy, DS, PSP) levam o adolescente
a deitar-se no sofá, onde, por horas a fio, afasta-se do
mundo, hipnotizado pelo jogo eletrônico. Existe uma correlação
nítida entre ganho de peso e tempo dedicado à televisão/jogos
eletrônicos. Quanto maior o número de horas na tela, maior
o ganho de peso.
Consequências da obesidade infanto-juvenil
A mais séria consequência ao excesso de peso na infância
e adolescência é a progressiva incidência de obesidade na
vida adulta. Estatísticas demonstram que crianças e adolescentes
obesos serão candidatos à obesidade na vida adulta em proporção
superior a 50%, isto é, cerca de metade dos obesos infanto-juvenis
terão que lutar contra o excesso de peso durante a vida
adulta. Além disso, as crianças e adolescentes que ultrapassam
a barreira de um Índice de Massa Corporal superior a 95%
são considerados como candidatos às mesmas comorbidades
que os adultos - alterações nas articulações (principalmente
joelho e coluna), pedras na vesícula, alterações nas gorduras
do sangue (colesterol elevado, HDL-colesterol (colesterol
bom)) baixo e propensão para doenças coronarianas em idade
relativamente jovem (30 - 40 anos).
O tratamento deve ter a cooperação da família
O princípio fundamental é a mudança do estilo de vida: dedicar
menos horas ao lazer sedentário e, pelo menos, uma hora
por dia ao exercício aeróbico. Os gordinhos não gostam de
Academia de um modo geral. A figura do pai é fundamental
nesta parte do tratamento.
O pai é que deve estimular o filho a acompanhá-lo em caminhadas,
em dar umas voltas de bicicleta, em nadar no clube. Para
as meninas nada melhor que ouvir música no Ipod e dançar
sozinha, em seu quarto, ao balanço da música, fazendo sua
coreografia, jogando braços e pernas ao ritmo da música,
pensando em estar no palco, participando de um show.
A dieta ainda considerada melhor é a supressão dos carboidratos
de alto índice glicêmico (doces, sorvetes, chocolates, arroz
branco, pão branco, etc). Usar mais pão integral, arroz
integral, legumes, verduras, saladas. Muita proteína (carne,
peixe, frango, queijos, ovos) e NUNCA pular refeições. Fugir
dos salgadinhos e dos lanches da escola, da pipoca, dos
refrigerantes. Ter o apoio do médico (ou da nutricionista)
constante e frequente. Alguns medicamentos podem ajudar
a partir dos 12 anos de idade.
A ansiedade por comer pode ser controlada. Com todos da
família ajudando e o médico orientando existe ampla possibilidade
de êxito nesta terapêutica comunitária.
Por Geraldo Medeiros 09-03-09