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Todo familiar que tem uma pessoa obesa em casa reclama de
problema de ronco.
Com o aumento exagerado, progressivo e alarmante da obesidade
no mundo, desde as nações mais desenvolvidas até as chamadas
emergentes, alguns problemas dos obesos ainda estão à espera
de solução.
A presença de roncos, sonoros, em tom elevado, persistentes
e incômodos é a queixa principal do cônjuge. É um que pode
interferir na vida conjugal. Muitos casais chegam a dormir
em camas separadas ou até em quartos separados.
Houve, nos últimos anos, um grande desenvolvimento no diagnóstico
e tratamento dos distúrbios respiratórios sono-dependentes.
O conjunto dos sintomas e sinais deste conjunto fisiopatológico
foi denominado de Síndrome da Apnéia Obstrutiva do Sono
(SAOS).
Apnéia (parada respiratória momentânea do sono)
As pausas respiratórias durante o sono, chamadas pelos
médicos, de apnéia ou hipopnéia, são definidas como uma
redução temporária de passagem de ar pelas vias aéreas superiores
com duração mínima de 10 segundos.
Este tipo de pausa respiratória pode ocorrer muitas vezes
durante o sono do obeso. A prevalência é elevada chegando
a cerca de 10% da população obesa masculina, nos homens
de 30 a 60 anos.
As mulheres obesas sofrem relativamente menos com a apnéia
- 4%. Em estudos populacionais verifica-se que em obesos
mórbidos, a proporção de homens com SAOS é de 50% dos pacientes.
Nesse quadro, também três vezes mais comum em homens que
nas mulheres. A razão porque os homens são mais afetados
é principalmente anatômica. Os homens apresentam obesidade
central, isto é, na barriga, tronco, pescoço, com pouco
acúmulo de gordura nos glúteos, pernas e braços.
O pescoço curto e grosso dificulta a passagem do ar quando
o obeso se deita, favorecendo os roncos e, à medida que
o sono se aprofunda, a apnéia ou hipopnéia.
Sintomas diurnos das dificuldades respiratórias
Todos nós já presenciamos a clássica sonolência excessiva
do obeso. É muito comum a presença da "soneca" após a refeição
do almoço ou do jantar (ou mesmo durante a refeição), quando
o obeso se senta com a família para ver televisão.
Após alguns minutos, a cabeça se reclina para traz ou tomba
para para um "soninho" que dura uma hora ou mais. No ônibus,
no táxi, como passageiro de lotações, trens urbanos o obeso
não resiste à suave trepidação e "embarca" no sono.
Em casos mais avançados o obeso passa a "dormitar" mesmo
em conversa com o seu inter-locutor e, algo mais grave,
pode ter uma sonolência quando o carro que dirige tem parada
obrigatória no sinal vermelho ou na fila do pedágio. Desnecessário
dizer (mas muito importante pelas conseqüências) é que esta
sonolência é muito mais intensa se houver ingestão de bebidas
alcoólicas.
A falta de aporte de oxigênio ao cérebro irá causar sintomas
de dificuldade de memorizar fatos recentes, falhas ao tentar
se lembrar de nomes, datas, números, problemas de entendimento,
compreensão e raciocínio lógico.
Estudos conduzidos por neurologistas confirmam que o obeso
apresenta dificuldade para certas funções complexas como
planejamento em seu trabalho, execução de tarefas que exigem
raciocínio apurado e conseqüentemente aprendizado lento
e dificultoso.
Os motivos que levam o obeso a estes sintomas
A fisiologia, isto é, o estudo da função respiratória no
obeso aponta para várias falhas anatômicas e funcionais
das vias aéreas superiores.
A obesidade causa modificação geométrica destas vias de
passagem do ar, altera o controle da musculatura da região
e diminui a sensibilidade de estruturas sensíveis ao gás
carbônico, o qual é normalmente expelido na expiração (quando
soltamos o ar dos pulmões).
Normalmente quando inalamos o ar (respiramos) aproveitamos
o oxigênio para o metabolismo de nossas células.
A circulação trás de volta o gás carbônico, produto do trabalho
celular o qual é expelido na expiração. A retenção de gás
carbônico nos pulmões (e no organismo) induz uma necessidade
de acelerar os movimentos dos pulmões.
Mas o obeso faz isso de forma lenta, pois os seus centros
de controle respiratório estão acostumados a teores elevados
de gás carbônico.
Quando se estuda, com detalhes, as vias aéreas respiratórias
do obseo nota-se que as paredes laterais da faringe estão
"grossas" e espessadas dificultando a saída do ar dos pulmões.
Os médicos definem estes fenômenos como duas conseqüências
básicas:
Baixa entrada de oxigênio (HIPOXIA). Elevada retenção de
gás carbônico (HIPERCAPNIA)
O diagnóstico e tratamento da Apnéia
Usa-se a polisonografia realizada em vários centros hospitalares
na qual o paciente é ligado a aparelhos que medem a sua
capacidade de entrada e saída de ar, número de apnéias durante
o sono, grau de retenção de gás carbônico e outras alterações
na troca de gases (oxigênio e gás carbônico).
Claro que o tratamento deve visar a diminuição de peso,
de forma personalizada e eficiente. É importante saber se
a função de tireóide está normal porque o tratamento do
hipotireoidismo melhora muito a apnéia do sono.
O uso de um aparelho que "bombeia" ar sob pressão positiva
para os pulmões leva a resultados excelentes. Este aparelho,
chamado de CPAP (Continuous Positive Airways Pressure),
alarga as vias aéreas superiores, "força" a entrada de ar
nos pulmões e permite maior e melhor saída do gás carbônico.
Como que por milagre as apnéias e os roncos desaparecem,
melhora a função cognitiva (memória, rapidez de raciocínio),
diminui a sonolência durante o dia e tudo causa um entusiasmo
no paciente. Sem dúvida, os familiares e sobretudo, o cônjuge,
são os primeiros a elogiarem e aplaudirem os rápidos avanços.
Alguns efeitos colaterais, desconforto físico, rinite e
boca seca são bastante leves e suportáveis.
A aderência do paciente é de 70% dos casos e poucos necessitarão
de procedimentos mais complexos como cirurgia ou usos de
medicamentos específicos para estímulo respiratório.
O CPAP, sem dúvida, resolve o grande problema do obeso:
torna-o sociável, alegre, comunicativo e alerta, levando-o
a ter melhor qualidade de vida.