 |
A incidência
de doenças cardíacas entre os franceses é significativamente
mais baixa do que entre americanos e ingleses. Há muito
tempo sabemos dessa estatística, mas foi em 1992 que o médico
Serge Reinaud publicou um interessante trabalho na revista
Lancet, com suas conclusões a respeito do comportamento
do francês à mesa. Apesar de os gauleses comerem fígado
gordo de ganso, usarem muita manteiga, adorarem uma costela
de carneiro, e se deliciarem com batatas fritas, nunca apresentaram
altos índices de doenças do coração em comparação aos nervosos,
apressados e agitados americanos.
Ainda de acordo com a pesquisa de Reinaud, os franceses,
italianos, portugueses e espanhóis (todos tradicionais bebedores
de vinho tinto, assim como os franceses) apresentavam índice
de mortalidade por infarto de miocárdio quatro vezes menor
que os anglo-saxões, calculando-se o número de eventos cardíacos
por grupo de 100.000 habitantes de cada país. O trabalho
causou um certo espanto na União Européia, pois os alemães
e austríacos, que sempre preferiram o vinho branco, não
pareciam se beneficiar das excelentes qualidades medicinais
e protetoras do vinho tinto do grupo do Mediterrâneo. A
chave do segredo, portanto, estava no consumo do vinho tinto
de forma regular durante as refeições.
A propriedade miraculosa do vinho
Só em 2006, no entanto, é que tomamos conhecimento de que
existe no vinho tinto um produto químico, de nome complicado,
chamado resveratrol (para facilitar vamos abreviar para
restrol). Esta substância já era conhecida pelos botânicos
e pertencem ao grupo dos flavonóides. São elas que dão ao
vinho nuances de cor, sabores especiais, sensações gustativas
de adstringência e aromas. Estes flavonóides têm, em geral,
no ser humano, propriedades vaso-dilatadoras e antioxidantes.
Esta última qualidade é importante porque todas nossas células
do corpo, em suas funções específicas, consomem energia,
produzem agentes químicos e hormônios, liberam calor, mas
ficam com resíduos chamados "radicais livres" (o "lixo"
das células). O corpo deve ser livrar, rapidamente, destes
radicais livres fazendo uma oxidação neutralizadora.
Daí a vantagem de darmos uma mãozinha ao metabolismo usando
oxidantes como os flavonóides do vinho, vitamina C, beta-caroteno,
selênio e zinco entre outros. Mas vamos voltar ao resveratrol
(ou restrol). O doutor Sinclair, da Universidade de Harvard,
EUA, e seus colaboradores começaram a estudar os benéficos
efeitos desta molécula. Eles verificaram que a adição de
restrol a uma colônia de leveduras (S. Cerevisiae) em contínuo
crescimento aumentava em 70% o tempo de vida útil destes
fungos. Admirados, os pesquisadores tentaram verificar o
efeito do restrol em um conhecido verme (C. elegans) e constataram
que a adição diária do produto à alimentação do animal,
aumentava a longevidade do C. elegans. Outros pesquisadores
notaram que o restrol aumenta em 30% o tempo de vida da
famosa mosca-da-fruta (Drosófila). Por aí se constata que
esta maravilhosa molécula química pode aumentar o tempo
de vida de seres vivos, pelo menos em estudos laboratoriais.
O efeito salutar do vinho na área cardiovascular
Há muito tempo os médicos reconhecem que a inflamação crônica
de artérias, com depósito de colesterol, induz doenças graves
tanto no coração (infarto do miocárdio), como na área cerebral
(acidente vascular cerebral). Este entupimento de importantes
artérias depende de vários fatores conhecidos: obesidade
de longa duração, hábito de fumar, pressão alta, presença
de diabetes não controlado e sedentarismo. A artereosclerose
e suas conseqüências a longo prazo é a mais evidente e freqüente
causa de óbito em países desenvolvidos ou em desenvolvimento.
Como reduzir o avanço das alterações físico-químicas que
levam a este "engrossamento" de artérias? Existem boas provas
científicas de que os flavonóides podem diminuir a formação
de ateromas (placas dentro de artérias).
Em países nos quais a população toma vinho tinto regularmente
existe menor mortalidade por doenças cardíacas causadas
pelo entupimento de artérias. Um estudo realizado em 13.000
pessoas adultas mostrou que outras bebidas alcoólicas não
possuem esta propriedade, ou seja, somente o vinho tinto,
em doses moderadas (cerca de 2 copos por refeição principal)
mostra efeito benéfico na redução do infarto de miocárdio
e acidentes vasculares cerebrais. Outros cinco estudos populacionais,
em diferentes países (Estados Unidos e União Européia) confirmam
este fenômeno. Para finalizar um estudo publicado na revista
Circulation revela que a dieta do Mediterrâneo (peixe, frutas,
vegetais, grãos e vinho tinto), comparativamente à tradicional
dieta norte-americana (hambúrgueres, batatas fritas, salgadinhos
e pizza), reduz em 70% o risco de doenças coronarianas em
período de observação de 4 a 5 anos.
O resveratrol não está presente em todos os vinhos
É evidente que os benefícios do vinho são diretamente relacionados
à concentração do resveratrol no líquido final oferecido
ao consumidor. Os enólogos descobriram que esta substância
química é uma defesa da uva a agentes agressivos como fungos.
Tudo indica que o resveratrol está em maior concentração
em vinhos produzidos a partir de uvas Pinot Noir e Merlot.
Estas uvas com casca mais fina são mais suscetíveis de serem
atacadas por fungos. O resveratrol produzido, por sua vez,
protege a uva do ataque fúngico. Decorre deste fato que
vinhos de uva Pinot Noir e Merlot terem maior concentração
deste maravilhoso elemento químico (resveratrol).
E os vinhos brancos? Geralmente não contém o restrol, mas
alguns enólogos obtiveram vinho branco com cerca de 40%
dos flavonóides do vinho tinto, simplesmente deixando o
suco de uva recém-fermentado em contato com as cascas por
um certo tempo. Já é um bom começo para quem gosta de vinho
branco. Mas tinto ou branco, o consumo moderado de vinho
faz bem à saúde, sem deixar de lado, é óbvio, uma alimentação
saudável e o exercício físico.